domingo, 1 de novembro de 2009

Filosofando T

Taperas
PAULO MENDES*
E-mail: pmendes@correiodopovo.com.br

A tapera é uma imagem e um sentimento, transpira cheiro de ausências. Dorme entre as coivaras, ervas daninhas e madeiras apodrecidas. Há, ao derredor dessas moradas abandonadas, uma infinidade de restos de vidas esquecidas. Em meio ao carquejal, o campeiro mira, desgostoso, um quadro de cores desbotadas, de decadência. Lugares que parecem um andrajo que suspira faminto, insone e louco, errando no vazio e no tempo que se esvai lentamente, acuando baixo como cachorro perdido no corredor. As taperas deixam pequenos vestígios nos fundões de campo, nos ermos, numa volta de rio, ruínas secas de almas. Perdido, um tijolo tapado de musgo, mais além, riscos de casas, pés de laranjeiras, um pessegueiro, um limoeiro ao lado do açude e, alguns metros acima da casa, perto de onde ficava a mangueira, um poste imponente, o velho palanque de amansar potros. Um quero-quero fez ninho no piquete ao lado. Em cima do moirão, um joão-de-barro ergueu sua casa redonda de terra vermelha. A antiga estrada de chão batido só é reconhecida pela grama rasteira, miúda, as barbas-de-bode e os caraguatás.
Taperas são metáforas dos homens e suas vidas. Nesses rincões estão os restos de quem não teve nada, ou de quem teve muito e perdeu tudo. São os sinais do tempo rodando, o eterno círculo se fechando, o retornar a si mesmo. São espécies de fotografias rotas a provar que o presente sempre é engolido pelo pretérito. A certeza messiânica de que o futuro será sempre o segundo seguinte, tudo num vaivém frenético do tempo, esse carrasco que se transforma inexoravelmente em nosso verdugo fatal. Olhando essas taperas perdidas nos bambuzais, tem-se logo a impressão da temporalidade humana, a certeza da finitude atávica que carregamos na garupa. Aí é inevitável questionar a arrogância desses senhores, com suas almas e corações sombrios. Será que nunca viram uma tapera? Ou olharam, mas não enxergaram?
Sorvo mais um mate dessa erva buena do Alto Uruguai. Se a vida me veio corcoveando, tentei amansá-la, dei tironaços, encurtei o cabresto, apertei a cincha, alisei de baixo, sentei xergões de lã, montei devagar, despacito, rezando sempre as ave-marias e os padre-nossos. Agora, aqui estou, pronto, de coração estreleiro, trouxe a tropa da vida cansada, mas não perdi nenhuma rês pelo caminho. Ficaram estirados sobre o poncho do pampa, pedaços de minha alma missioneira e caborteira que se transformam, neste arremate, numa cerração de saudade. Largo a cuia e saio a caminhar para sentir o vento outonal do meu rincão e ouvir a orquestra da bicharada no banhado. Olho para minha imagem refletida na sanga. Vejo uma cara enrugada, envelhecida e solita. Quase tapera.

*Jornalista e mestre em
Literatura Brasileira

Um comentário:

Kenya disse...

Kelly, um claro elo de identidade e vivências, muito bom!